terça-feira, 26 de março de 2013

A descida do Senhor à mansão dos mortos

Queridos
Hoje, em uma terça-feira da Semana Santa fazendo minhas orações pessoais, minha alma foi levada a antecipar um pouco minhas meditações, segundo o tempo liturgico.
Pulei lá para o Sábado Santo ao me lembrar daquela rica leitura do Sec. IV onde no Ofício das Leituras é narrado a descida de Jesus à mansão dos mortos.
Amo essa leitura, trás vida ao meu coração. Enche-me o peito de gratidão ao Bom Deus por ter se tornado homem e me resgatado; por me preservar em sua presença e me dar a oportunidade de dia a dia fazer minha livre escolha pelo amor.
Então pensei: porque não postar?
Ainda que não sirva para os outros, me servirá no futuro, quando me lembrar dos sentimentos que ocuparam minha pequena alma quando a li pela primeira vez.


A descida do Senhor à mansão dos mortos 

  Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e   uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e   ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há  séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.

Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos.

O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa.
Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.

Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’

Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa.

Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de
escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado.

Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida.

Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso.

Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti.

Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te
coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus.

Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”.


sábado, 8 de dezembro de 2012

Homenagem à Virgem Imaculada

 
Cantam Louvores a Igreja,
Saudando alegre e jubilosa sua Rainha!
Imaculada é o seu nome, porque assim foi concebida,
Fazendo-se do mundo a nova Eva, e da antiga redimida!
Em sua alma branca e pura pôde Deus pintar Jesus.
  Aquele que gerado desde toda a eternidade,
Em Maria ganha carne, e redime seu povo pela Cruz!

  Preparada desde sempre para o FIAT, permaneceu assim intacta.
... Antes, durante e depois,
És sempre Virgem, Ó Maria Imaculada!
Os anjos bradam glória, elegendo-te das criaturas a mais bonita.
De ti Deus diz: cheia de Graça; eu com todas as gerações dizemos: Bendita!
Celebrando hoje o seu dia, renovamos nossa entrega de escravos.
Esperamos que forme em nós o Cristo,
Para que continuemos o Teu reinado!
E assim jubilosos possamos, tua Glória ao mundo cantar,
Pois sendo nós em sua fôrma moldados,
Ao mundo todo faremos Jesus Brilhar!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Canto do tempo


 
Irmão tempo nosso amigo,

Ofertamos-te hoje ao Senhor.

Tempo criatura Bendita tu és Obra do Amor.

Há sempre um tempo para cada coisa

Mas sempre será tempo de Amar.

Ofertamos os profetas, nossos pais antigos,

As montanhas benditas, do Sinai ao Tabor.

Ofertamos o momento ápice de nossa Salvação,

a Encarnação do Verbo no seio de Maria

e também sua crucifixão.

Tempo doloroso que durou três dias,

Mas logo após pudemos ofertar a Ressurreição.

Ofertamos a Igreja primitiva,

os apóstolos, mártires, os padres do deserto, Agostinho e Irineu.

Ofertamos São Francisco pai querido,

E todos os que depois dele passaram e registraram na terra o sabor.

De Tereza – reformadora à Teresinha,

Todos eles não existiriam se não houvesse o tempo a nosso favor!

Oh Tempo criatura Bendita tu és Obra do Amor.

Hoje o tempo trás os novos carismas, somos frutos do Espírito!

Para renovar e dar sabor a toda Igreja,

Viveremos como o Cristo, nossa história com ardor.

Ofertamos hoje este tempo com suas lutas, dores e alegrias.

Perseverantes viveremos cada momento

Na espera do ultima dia.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A amada e o Amado.


A alma humana é o lugar onde Deus encontra suas delícias.

Ela é a amada e Deus o Amado!

Toda alma teve seu encontro com Deus na eternidade. No amanhecer da vida a presença do Amado é forte e quente, consome e delira.

Mas no entardecer a saudade esmaga os ossos da carne e causam dor na alma da amada. O Amado então socorre sua cegueira e mostra-lhe onde se consuma o amor dos apaixonados.



Súplica da Amada:

Procuro ardente o meu Amado.

Onde estás Sol da Justiça que não sinto mais seu dardejado?

Lembro-me dos dias quentes, onde seu calor me consumia,

Dos delírios reluzentes com o Sol do meio dia.

Lembro-me das manhãs serenas em que te esperavas apontar na Aurora,

A saudade me excitava e as noites curtas em sonhos iam embora.

Onde estás oh meu amado! Procuro-te por trás das nuvens.

Sinto sua presença, mas quero o seu calor.

A noite escura e fria já chega novamente.

Dura mais do que o dia e me gela o coração.

Sinto saudades de meu Amado, de vê-lo abrir as flores do campo.

De vê-lo acariciar meu rosto com o vento, fecundar minha alma com a chuva.

Transformar meu pranto em canto.

 

Resposta do Amado.

Oh minha amada, ouço seus gemidos.

Porque entristeces tua alma e temes a noite escura?

Abra as portas e deixe entrar a noite minha amada.

Na escuridão da vida dou-lhe o cálice Sagrado, em segredo uno-me a ti.

Já não precisas ver-me como outrora, somos um!

Eu e tu minha amada, escondidos no labor de seus sacrifícios.

Eu e tu abrasados no mistério do incompreensível.

Abra as portas e deixe entrar a noite minha amada.

Cearemos e faremos juntos a refeição,

na noite escura da vida, ofertaremos nossa oblação,

e já não seremos dois mas um só coração.

Abra as portas e deixe entrar a noite escura.

Dissiparemos toda a neblina, o céu se encherá de estrelas,
 
E fugirá de tua alma toda a secura.

A beleza da lua iluminará sua beleza,

 e a lembrança do dia será apenas saudade sadia.

A noite descerá os seus encantos e então seremos Um.

Abra as portas para a noite minha amada,

Pois é nela que se encontram os apaixonados.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Viagem à Fonte


Queridos amigos.
Nas ultimas semanas li um livro que gostei muito.
Tenho procurado bastante por livros sobre o autoconhecimento, principalmente o Eneagrama Cristão.
Tudo começou quando vi uma citação de São Serafim que dizia: “encontras a paz interior e uma multidão será salva ao seu lado”. Lembrando que a paz interior é um estado da alma de conhecimento profundo de si e consequentemente de Deus, possível apenas aos humildes.
Como o Peregrino Russo que se inquietou com o Versículo 17 da quinta carta aos Tessalonicenses, também me senti impulsionada a procurar tudo que me remetesse a uma viagem interior, e encontrar a paz dada por Cristo, não a paz que o mundo oferece, mas a paz que vem de estar em Deus.
São Francisco de Assis chamaria esta paz de "A Verdadeira Alegria".
Já no finalzinho do livro li uma poesia e senti muita vontade de partilhar com todos. Porque senti que ela é um resumo lírico do que o autoconhecimento pode fazer em nossa alma.
O livro é do Padre Domingos Cunha e se chama Eneagrama, sua dose diária. A poesia escrita abaixo se encontra na página 242.

Viagem à Fonte

Dentro de ti há uma águia dormindo querendo voar,

Dentro de ti há um tesouro escondido querendo brilhar.

Dentro de ti há um jardim esquecido querendo florir.

Dentro de ti tem criança chorando querendo sorrir.

Dentro de ti há uma fonte calada querendo jorrar.

Dentro de ti tem um sol abafado querendo surgir.

Deixa o silêncio acordar o amor que em ti está dormindo.

Deixa o amor germinar as estrelas que habitam teu ser.

Deixa a verdade quebrar as amarras que estão te oprimindo.

Deixa que o Deus que habita teu centro te faça viver.

Solta as águias que querem contigo aprender a voar.

Abre os porões onde moram as sombras, que o sol quer entrar.

Rasga caminhos no rumo do centro onde Deus te habita. Busca no fundo do poço a fonte que a vida suscita. Para e cala, aquieta e deixa o silêncio falar.

Deixa que abrase teus olhos o fogo que em ti crepita.

Busca e abraça a criança que um dia deixaste na estrada, quando as máscaras foram cobrindo a essência sagrada. Deixa que a sede de Deus te conduza e te faça viver. Abre caminhos de volta pra casa e vai renascer.

Deixa que essa criança, encontrada, aceita e amada, solte a criança feliz que é imagem de Deus, teu ser.
Desejo de coração que seja disperto em sua alma uma saudade, um desejo profundo de encontrar-te consigo mesmo.
Paz e Bem!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Aos meus amigos.


“queria poder dizer, em palavras o que sinto agora, queria poder dizer, para todos que o Senhor é meu amigo mais querido, minha história de amor!”

Podemos nos perguntar por que dia do amigo? Assim como dizemos sobre dia das mães, pais, namorados... Dia do amigo, da mãe, pai, etc. não são todos os dias?

Com certeza todos os dias temos que viver com intensidade todos os chamados que temos na sociedade: ser mãe, filho, amigo! No entanto vivemos em uma sociedade que a tanto tempo perdeu o sentido de eterno, que ‘celebrar’ a vida é algo que passa desapercebido.

Dessa forma tirando de lado o interesse comercial por detrás dessas datas temos a oportunidade de fazer com que cada um desses dias se tornem dias de gratidão, elogio, cortesia, celebração.

Hoje quero celebrar a todos os meus amigos, aos que vejo constantemente, aos de infância que nunca mais vi, aos virtuais e que vejo raramente, aos parentes próximos e distantes que possuem o primeiro vinculo de se tornar amigo por uma escolha da vida.

Ter amigos é a coisa mais preciosa que uma pessoa pode ter; de que vale todas as conquistas do mundo sem ter um amigo para se alegrar junto e partilhar. Infeliz daquele que passa por momentos difíceis sem um ombro amigo onde possa depositar suas lagrimas e encontrar seu consolo.

Graças a Deus tenho muitos amigos. Graças a Deus Ele é meu melhor amigo!

Ser amigo é deixar o outro participar de sua vida, buscar ter intimidade respeitosa, mostrar que se importa com o outro como Jesus, e que respeita a liberdade dele como Jesus o respeita; essa intimidade lhe dará poder de corrigir, aconselhar, advertir... – sem que o outro se sinta desrespeitado, agredido ou incompreendido; porque o vinculo é tão grande que é impossível não acreditar que o amigo não quer o meu bem.

Ser amigo é querer bem além dos interesses. É muitas vezes ter perdido a intimidade por causa da distancia, das mudanças na vida, dos caminhos que se desencontraram... no entanto sentir essa pessoa tão real e próxima de sua vida, seja em uma lembrança do passado, em uma foto guardada e encontrada, em um encontro por acaso e de repente ter alegria de rever esse amigo, ou simplesmente quando a saudade fala mais alto e mandamos um recadinho, procuramos noticia por não aguentar mais de saudade daquele grande amigo.

Para ser amigo de verdade não necessariamente precisamos estar juntos todos os dias. Existem muitas formas de ser amigo. Podemos ser amigos, independente da afinidade, proximidade ou oportunidades de estarmos juntos sempre.

Se tivéssemos um coração puro como o de Jesus, a admiração, a compaixão, o desejo santo de amar gratuitamente já seriam motivos de aumentar nossas listas de amigos, porque assim como existe hierarquia no céu, também podemos ter amigos de diferentes formas mas que não deixam de ser amigos. Porque ser amigo é comungar no coração do outro, é saber de sua existência e se sentir feliz por tê-lo em sua vida e desejar que a distância, o tempo ou as feridas se afastem... e um dia os traga para a nosso presença: são os amigos de desejo.

Tenho amigos que não tenho mais nenhum contanto, alguns do início da comunidade, infância, outros que morreram, outros que estão próximos mas possuem barreiras comigo. Com todos eles continuo conversando através de meu anjo e pela comunhão dos santos – não apenas quando oro por eles, mas quando vejo algo que algum gosta ou vivo uma situação que a ele faria feliz. Todos eles sabem que espero o Grande Dia Final, onde nem o tempo, distancia ou ferida nos impedirão de um abraço acolhedor ou uma partilha sincera de vida, porque um dia tivemos isso aqui na terra em um momento que escapou do tempo e foi vivido na eternidade.

Tenho ainda outros amigos que não sabem nada de minha vida e eu menos ainda da vida deles, mas defendo e sou defendida por esses amigos. Conhecemos-nos por acaso, pela internet, por um momento de oração, por me conhecerem de outras comunidades ou em uma missão, etc... De uma forma totalmente espiritual sabemos que podemos contar uns com os outros e que bastará uma ligação e um pedido de socorro para que nossos corpos se encontrem, e às vezes uma prece para que nossas almas entrem em comunhão. Estes muitas vezes não são meus irmãos, porque é preciso intimidade de família para ser irmão, mas carregam consigo o sentimento de amor hesed que precisa ser encontrado entre os de uma mesma família.

E tem ainda os amigos especiais, aqueles que conhecem nosso olhar, nossos ‘tiques’, prevê antecipadamente nossas atitudes, conhecem todos os nossos defeitos e continuam nossos amigos... esses acredito que romperam a barreira da amizade, irmandade... escalaram os autos cumes afim de ser para nós a prefiguração do amor e amizade de Deus por nós. Haja o que houver, sempre serão esses amigos especiais. Amigos especiais não precisam ser citados, se sabem assim, se sentem assim... não esperam convite, não buscam oportunidades convenientes, não faz rodeio em dizer o que quer ou em te corrigir quando não gostam de algo que fazemos. São livres para ser o que são: amigos especiais, irmãos que a vida nos deixa escolher.

Com esses amigos não precisamos ser perfeitos, fazer a lição de casa com competência, ou ‘pisar em ovos’ no que dizer. Amigos nos fazem livres. Livres até mesmo para apontar nossos defeitos e nos chamar a atenção; e quando eles o fazem, acolhemos sem nos ferir, porque a amizade é a maior prova que o fazem para o nosso bem; e ainda que não seja eu também dou a ele a liberdade de agir, pensar, errar e se redimir. Porque os amigos - irmãos são aqueles que se perdoam todos os dias.

Na vida quando são apenas irmãos temos dificuldades de torná-los amigos. Mas quando são verdadeiros amigos damos a eles o título de irmãos. Se livremente escolhemos sermos irmãos uns dos outros é necessário que escolhamos também ser antes de tudo amigos uns dos outros.

Queridos amigos, para concluir, vejo que precisamos antes de tudo entender que somos amigos de Jesus. Se olharmos nossa vida como um convite amoroso de um Amigo Fiel a estar ao lado Dele, com certeza não nos colocaríamos tantas vezes como se estivéssemos fazendo favores para Jesus em aceitar um irmão difícil, me cansar em um apostolado, ou me dedicar à oração. Se às vezes eu penso assim preciso reavaliar minha amizade com o Senhor.

Entenderíamos que um Grande Amigo nos dá muito mais do que merecemos e que no final das contas ainda sou eu que deva amor, e tudo o que faço é pouco diante do tanto que faz por mim esse Amigo Deus.

Queridos amigos obrigada por fazerem parte de minha vida, obrigado por serem os amigos que são e darem sentido a minha vida.

Amo vocês.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Aquele era um olhar diferente...


Aquele era um olhar diferente... Meus olhos marevajam lágrimas de humilhação, remorso, vergonha. Não conseguia olhar nos olhos dos que me acusavam, não conseguia olhar nos olhos de minha própria alma. Não conseguia encarar o meu interior.

Arrastada e empurrada de um lado a outro todas as vozes se confundiam dentro de mim, fazia-me ir aos fundos abismos das imagens que adquiri e aceitei no decorrer da vida: adultera, pecadora, prostituta!

Eu era aquela pecadora caída! Machucada por fora, mas de alma ainda mais ferida. Vista pelos homens pela sociedade por mim mesma como uma excluída, como alguém que não merece compreensão.

Estava lá no chão: caída, cuspida, molestada e assustada. Na alma já sentia o peso e a ferida da morte certa, das pedras que uma a uma me tirariam a vida. Das vozes autoritárias que zuíam e clamavam minha sentença.
Não conseguia distinguir mais o que diziam, até reconhecia algumas vozes das quais um dia também em outros tons sussurraram em meus ouvidos, mas a humilhação era tanta que nada mais eu compreendia. Eu não podia ouvir mais nada, pois eu mesma me dizia: Culpada! Culpada!

Jogada com força naquele chão eu sei que me colocaram diante de um homem. Minha face na queda se encontrou com a areia áspera e quente o deserto, e de cabeça baixa assim preferi ficar esperando pelo momento onde a primeira pedra anunciaria o início de minha suposta liberdade, o início do fim daqueles sofrimentos de toda uma vida. O marco inicial de que aquelas seriam as ultimas lagrimas de um corpo e um coração cansado de chorar.

Mas de repente fez-se um silêncio. As vozes e acusações pararam. Era como se fosse o silêncio da manhã de um novo dia. Minha face ainda estava por terra. Não tinha coragem de me levantar!

Ouvi então um barulho de pedra cair ao chão, e entre angustia e medo, apertei os olhos, as mãos sobre a areia e esperei que viesse a primeira pedra me acertar. Outro barulho de pedra, e outro, e outro... passos se distanciavam de mim. O que será que está acontecendo?

Levantei um pouco a cabeça e com os cabelos ainda sobre a face vi meus algozes se dispersarem.

De repente uma voz se dirige a mim, devolvendo-me a dignidade do que sou.

- Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?

- Ninguém, Senhor. – Respondi ainda envergonhada e cabeça baixa e com medo de encarar.

Mas a altura de meus olhos marejados (que somente aceitavam olhar um pouco acima, até a cintura deste homem de voz doce e compassiva), pude ver uma mão estendida.

Quem é este homem que primeiro me chama de mulher, que devolve a mim o título de dignidade que me foi tirado pela vida, por mim mesma? Quem é este homem que aceita tocar em uma pecadora, que não teme as represarias por estender a mão a uma adultera?

Olho por uns instantes aquela mão e enfim tomo coragem e encontro aquele olhar...
Ah! Aquele olhar!

Aquele então era um olhar diferente. Em toda minha vida nunca havia encontrando um olhar que me enxergasse por dentro, que não olhasse minha aparência, meu passado. Aquele olhar me trouxe ao meu momento presente! Até o flagrante de meu crime ficou no passado!

Aquele olhar chegou onde estava minha solidão, minha amargura e ferida. Iluminou as partes escuras e dissipou as trevas que haviam em mim.

Ainda trêmula estendi também minhas mãos, seduzida por aquele olhar fui recriada naquele pequeno instante em que meus olhos se deixaram ser olhada por esse tal Nazareno. Só podia ser Ele, já havia ouvido falar Nele, de seus milagres e do poder de suas palavras. Sim só poderia ser Ele.

Quando minha mão tocou a sua pude sentir toda a sua pureza. Jamais havia sido tocada por um homem assim. Aquele olhar curou a ferida da minha alma e aquele toque curou a minha carne, arrancou a lepra do meu pecado.

Ajudando-me a me levantar ouvi novamente sua voz.

- Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar.

Ter uma segunda chance, ter a oportunidade de recomeçar... mas tudo isso só foi possível porque eu pude me encontrar com Aquele Olhar.

Esse é um trecho baseando no texto do Evangelho de João, 8, 1-11. de um projeto do meu livro: Narro o que vi de Jesus. 
Este livro contem passagens biblicas e dos Santos, onde os personagens narram o que sentiram em seu encontro com Jesus. Essas narrações partem de minha cabeça, como em minhas orações e imaginação acredito que tenha sido. Não corresponde a visualizações misticas do que realmente ou exegeticamente aconteceu.
Rezem por mim para que consiga os objetivos de Deus quando me pediu para escrever isso. Está no forno de forma bem lenta pois as inpirações passam por oração, pela arte e depois pela escrita. Não necessáriamente nesta mesma ordem... mas de forma bem lenta.